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Clenio Faccin e o TUI: a insistência pelo teatro em Santa Maria

Hoje, falar da memória do teatro no Brasil ou tratar de sua história, abordando o passado das artes cênicas, é se aproximar de acontecimentos e pessoas espalhados por todo território nacional. O teatro no Brasil é resultado de uma sistemática insistência de artistas que quiseram que ele fizesse parte de suas realidades locais. Em Santa Maria, ele é, em parte, resultado do desejo de teatro de Clenio Faccin, mentor, durante anos, do Teatro Universitário Independente, o TUI. Junto de demais artistas que movimentaram e movimentam o Espaço Victorio Faccin – importante equipamento cultural da cidade -, sua trajetória é um fenômeno ainda a ser explorado e reconhecido.

     O Teatro Universitário Independente (TUI) tem origem no Teatro Universitário de Santa Maria (TUSM), um dos grupos santa-marienses que marcaram a relação da classe estudantil com o teatro, no século passado. O TUSM é resultado do adensamento das práticas culturais estudantis, em todo país, incentivadas pela criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1937, junto à criação da Universidade Federal de Santa Maria , em 1960 – primeira universidade federal criada fora de uma capital brasileira. Inicialmente, o grupo esteve vinculado ao Diretório Central dos Estudantes da UFSM e realizava suas atividades na Sala João Belém, um pequeno teatro de arena situado no subsolo da Casa do Estudante Universitário, com capacidade para cerca de 50 pessoas. Clenio Faccin foi um dos nomes ligados ao TUSM, sendo ele o responsável pela transformação do grupo em uma entidade independente – o TUI.

     A transição para a nova fase do grupo tem como emblema uma ocasião histórica: a participação, em outubro de 1968, no I Festival Latinoamericano de Teatro Universitário de Manizales, na Colômbia, com o espetáculo Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Desde então, o TUI foi marcado pela relação entre teatro e política, tendo como inspiração grupos contemporâneos, como o Arena e o Oficina. O repertório do TUI, no período em que foi comandado por Clenio, é bastante eclético. O grupo encenou textos de João Bethencourt, Millôr Fernandes, Joracy Camargo, Luigi Pirandello, Pedro Bloch, etc. O projeto estético, que embalava as atividades culturais do TUI, desenhado por Clenio Faccin, tinha como princípio a intensa correspondência com a produção dramatúrgica nacional da época associada à pesquisa de linguagem cênica, a partir do uso de recursos considerados inovadores para a época, como a presença de projeções de imagens na cena teatral.

     Uma das mais marcantes características do TUI foi a diversidade de seu público, tendo como um dos eixos de criação cênica, o teatro destinado à infâncias e juventudes. Considerado, historicamente, fundamental, porque intimamente ligado à formação de plateia, o teatro infantojuvenil desponta como campo de produção no Rio Grande do Sul na década de 1950 e marca a história do TUI. O grupo encenou clássicos de Maria Clara Machado, como Maria Minhoca e Aprendiz de Feiticeiro, junto de textos escritos para o próprio TUI. Esses espetáculos se tornaram imprescindíveis na obtenção de verbas e recursos, mantendo o grupo em constante atividade. As peças foram apresentadas em mais de quarenta cidades do estado. Para as apresentações dos espetáculos nas escolas, Clenio Faccin desenvolveu material didático específico para uso de professores e alunos potencializando as reverberações do acontecimento teatral.

     Um dos principais objetivos de Clenio, como mentor do grupo, era fazer do teatro uma atividade cultural presente e permanente em Santa Maria e também no Rio Grande do Sul. Em sua cidade-sede, o TUI se apresentou em diversos espaços: escolas, ambientes universitários e cines-teatros já desaparecidos hoje, como o Independência e o Imperial. A circulação do grupo por cidades do interior e pela capital se tornou uma estratégia na sobrevivência do TUI e, consequentemente, fez do grupo um instrumento de disseminação do teatro, contribuindo para a democratização do acesso às artes cênicas no estado. Mas há, na história do TUI, um fato extraordinário: a construção do Espaço Cultural Victorio Faccin, a sua sede. Erguido a partir de 1998, por artistas e entusiastas comandados por Clenio Faccin, ele é hoje um dos principais equipamentos culturais de Santa Maria. Sua importância se dá porque, apesar do teatro ocorrer em qualquer lugar, a busca por espaços que lhe sejam próprios é a expressão da persistência dos artistas e da arte em uma cidade.

     Ainda que seja indiscutível a importância de Clenio Faccin e do TUI para a história do teatro de Santa Maria, do Rio Grande do Sul e, consequentemente, do Brasil, são poucos os episódios de suas trajetórias que foram investigados com alguma minúcia. Em parte, isto se deve pela ausência de ações de preservação direcionadas ao acervo hoje custodiado no Espaço Cultural Victorio Faccin. Logo, a realização do projeto Projeto Memórias Teatrais: O Legado do TUI oferece não só a possibilidade de correção dessa falta, como impõem a responsabilidade quanto à investigação dos fatos que fizeram do teatro uma realidade local.

Autores: Fabiana Siqueira Fontana Atílio Alencar de Moura Corrêa

Bibliografia:

CORRÊA, Atílio Alencar de Moura; FONTANA, Fabiana Siqueira. TUI Conta Zumbi: a montagem de Arena Conta Zumbi pelo Teatro Universitário Independente de Santa Maria (1968). Revista Aspas, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 76–90, 2021. DOI: 10.11606/issn.2238-3999.v11i1p76-90. Disponível em: https://revistas.usp.br/aspas/article/view/204139.. Acesso em: 27 abr. 2025.

CORRÊA, A. A. D. M. Onde não houver liberdade, urge inventá-la: a arte de protesto em tempos sombrios e o caso do Teatro Universitário Independente de Santa Maria (1968-1974). 2018. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2018.

DICK, K. M. Estudantes na Arena: o teatro universitário de Santa Maria. 2011. Trabalho de Conclusão de Graduação (Licenciatura e Bacharelado em História) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2011.

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