*Essa crônica foi publicada originalmente em fevereiro de 2022, no Diário de Santa Maria
Há poucos dias, me deparei com a triste notícia da morte do Clenio Faccin, comunicada numa publicação do historiador Tau Golin nas redes sociais. No texto, que é acompanhado de diversas fotos de encenações teatrais das décadas de 1960 e 70, Tau homenageia aquele que foi, além de um homem que dedicou sua vida ao teatro, também seu colega de palco à época da criação do Teatro Universitário Independente de Santa Maria. O TUI, como é popularmente conhecida a companhia até hoje, ocupa um lugar fundamental na história cultural da cidade, sendo pioneiro na encenação de espetáculos que valorizavam a dramaturgia brasileira e colocavam em cena as questões sociais e políticas de um país subjugado pela ditadura.

Talvez muitos não conheçam a trajetória artística do Clenio, que começa no início dos anos 60 do século passado, antes mesmo da fundação da UFSM, e que esteve desde então vinculada aos círculos culturais estudantis. Quando morei improvisadamente com um bando de amigos no TUI em obras, antes do teatro se chamar Espaço Cultural Victorio Faccin, tive a oportunidade de conhecer o arquivo do TUI e o rico acervo que envolve fotos, artigos de jornais, programas teatrais, cartazes, desenhos de cenografia e até registros da intervenção da censura sobre peças consideradas subversivas pelo governo militar. Muitos anos depois, boa parte desse material foi utilizado por mim para a pesquisa que realizei sobre o TUI, quando cursei o Mestrado em História na UFSM, sob orientação do professor Diorge Konrad.

O grupo criado por Clenio esteve na vanguarda teatral do Rio Grande do Sul, sintonizado em tempo real com as iniciativas do Teatro de Arena, Opinião e Oficina, todos situados no eixo cultural brasileiro e integrados às trincheiras intelectuais e artísticas de oposição à ditadura. Em 1968, ano em que foi assinado o infame AI-5, o TUI levou ao Festival Internacional de Teatro de Manizales, na Colômbia, o espetáculo “Arena Conta Zumbi”, peça que denuncia a repressão do regime militar utilizando o Quilombo dos Palmares como alegoria histórica. Diante de uma plateia atenta às inovações estéticas do teatro e assistida por jurados como Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias, a companhia santa-mariense acabou premiada pelo júri popular. Ainda antes, Clenio entrou em conflito com a administração da UFSM sobre o futuro do teatro que funcionava no porão da Casa do Estudante, transformado na boate do DCE logo depois.

O Teatro Universitário Independente, obra maior do autêntico homem do teatro que foi Clenio Faccin, é um caso interessantíssimo de modernidade periférica, que colocou Santa Maria na linha de correspondência com a dramaturgia nacional em vigor na época. E esta é uma história que continua sendo escrita por quem mantém o TUI ativo, mais de cinco décadas depois de ser concebido por Clenio.
Autor: Atílio Alencar
