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O Teatro de Companhia

A década de 1990 tinha ares de estrada, poeira vermelha, muito frio ou muito calor no interior de uma veraneio. Essa caminhonete grande, a veraneio, carregava além de um grupo de teatro, um grande reboque com três cenários de três espetáculos diferentes. Vale aqui mencionar que as correrias, agitações e a agenda do ano de 94 contemplaram o interior do estado do Rio Grande do Sul com espetáculos promovidos pelo TUI Produções Artísticas, nome da empresa que era gerida por Clenio Faccin.

Nosso cotidiano era árduo mágico e laboral. Nossa rotina era marcada da seguinte maneira: Viagens antes de amanhecer com café da manhã em algum posto de gasolina de beira de estrada, montagem cedo da manhã logo ao chegar a nosso destino e após as 10 h ainda no turno da manhã, normalmente após o recreio escolar, a primeira apresentação de teatro infantil. Depois do espetáculo, sessão de autógrafos e desmontagem para antes do meio dia seguir nosso itinerário. No turno da tarde outra cidade e a mesma organização que na maioria das vezes era duplicada ou triplicada, dependendo de serem 2 ou 3 escolas por tarde.

Como é possível ver, era uma rotina dura e libertadora ao mesmo tempo.  Éramos muito importante para aquelas crianças,  que anualmente nos esperavam com os mesmos afetos de quem espera um familiar.

Em meio à maquiagem se desconstruindo, as coxias sendo descidas e cenários carregados, migrávamos para o próximo rincão, vilarejo ou município… Sempre, gosto de evidenciar: por vezes éramos seguidos pelas crianças, ou melhor, pelos espectadores que corriam seguindo a veraneio prateada e seu reboque colorido.

Essa rotina de trabalho, foi construída ao longo dos 30 anos de história que o TUI tinha nesse período. As inúmeras experiências de trabalho no interior gaúcho lapidaram essa lógica de trabalho e fizeram com que o TUI levasse um teatro consistente e engajado ao maior número de cidades possíveis. Inúmeras pessoas passaram pelo grupo, contribuindo para a trajetória dele, e tendo sua própria trajetória modificada ao vivenciar a experiência que o TUI proporcionava enquanto fazer teatral. Apesar de tantas pessoas terem passado pelo grupo, uma permanecia. Clenio Faccin. Ele sempre foi a constância do TUI, a pedra basilar do qual se desdobrou o trabalho do grupo. Com mão firme, uma generosidade sem fim, um sorriso enorme e muito empenho, Clenio guiou o grupo da melhor forma que conseguia para dar continuidade e sustentabilidade a ele e a todos do elenco. Ao longo do tempo escolheu mudar conforme os tempos mudavam, conforme as pessoas mudavam e conforme as necessidades do fazer teatral mudava.

Assim foi a década de 1990 e na virada para o ano 2000, que foi surgindo um novo direcionamento para todo o grupo: a construção de um teatro-casa como dizia seu idealizador Clenio Faccin. “Nós fazemos teatros: do prédio à cena.”

Adentrar no ano 2000 foi aos poucos romper com as amarras das exigências de uma Companhia de teatro, queríamos muito essa nova possibilidade. Em pouco tempo nasceu uma nova realidade: a interminável, cara e exaustiva obra de transformar uma antiga fábrica em um espaço cultural, ou melhor,  o teatro do TUI.

Autor: Cristiano Bittencourt

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